Dizia Hegel, o filósofo alemão, que a história se desenrola através da seguinte dialética: tese, antítese e síntese. Se o mestre do idealismo alemão estava certo, eu não faço a menor ideia. A realidade é que por forças do destino que estão além da minha compreensão, regulamentação e tecnologias de anonimato, duas ideias a princípio antitéticas, devem ser as grandes tendências para o mercado de criptomoedas em 2019. Vejamos como isso deve se desenrolar.

Durante muito tempo o e o mercado de criptomoedas foram estigmatizados como ferramentas de criminosos, sendo utilizados para tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. O Bitcoin seria uma moeda completamente anônima, perfeita para o financiamento de crimes no mundo inteiro.

A associação do Bitcoin com o mundo do crime tem sua razão de ser: o Bitcoin era a moeda de escolha do Silk Road, mercado online da dark web em que se negociava drogas. Entretanto, o Bitcoin não é anônimo, mas opera através de pseudônimos, que são os endereços das carteiras. Todas as transações envolvendo carteiras Bitcoin podem ser visualizadas na blockchain e, através de serviço forênsico, é possível quebrar o anonimato de diversas carteiras e transações, como já foi feito.

 Saldo e Volume de transações de importantes players do mercado

Saldo e Volume de transações de importantes players do mercado

Gráfico mostra saldo e volume de transações Bitcoin de importantes players do mercado. Fonte

A transparência e rastreabilidade do Bitcoin podem não agradar os criptoanarquistas e amantes do anonimato, mas a realidade é que são justamente essas características que ajudam a legitimá-lo como investimento perante as autoridades e o mercado institucional. É exatamente por este motivo que bancos e governos não se sentem ameaçados pelo Bitcoin e ainda permitem que ele seja negociado livremente.

No ano passado, a SEC declarou que interpretaria alguns ICOs como securities, devendo se subscreverem à regulamentação do setor. Neste ano também devemos ver progressos na regulamentação: a SEC deve dar nova avaliação de um ETF em fevereiro, a deve começar a operar futuros de Bitcoin e a Bakkt, corretora da ICE (controladora da NYSE) deve começar a operar, como já adiantamos em outro artigo.

Ainda que boa parte da comunidade cripto seja avessa à regulamentação do mercado, ela é fundamental para que o investimento institucional finalmente possa chegar ao setor. Os gêmeos Winklevosses (aqueles mesmos do Facebook (NASDAQ:), donos da corretora Gemini e uns dos primeiros cripto-bilionários do mundo) acreditam até que com a devida regulamentação, o valor de mercado do Bitcoin poderia superar o do ouro.

Se alguns investidores demandam mais regulamentação, outros clamam por maior privacidade e anonimato. Das cinco criptomoedas mais negociadas em , três delas têm como principal característica a promessa de anonimato nas transações: , e Zcash.

 Volume negociado nos pares fiat-cripto.

Volume negociado nos pares fiat-cripto.

Volume negociado nos pares fiat-cripto. Fonte: Coindesk

Não é possível saber se os compradores têm intenção de segurar as moedas ou estão utilizando como meio de pagamento anônimo, para depois retornarem às moedas fiduciárias, mas fato é que há um inegável interesse em privacycoins (criptomoedas focadas em privacidade e anonimato). Esse interesse não é somente dos compradores, mas também dos desenvolvedores. Das dez criptomoedas com maior atividade de desenvolvedores, quatro são privacycoins: Monero, Grin, Zcash e Dash.

A busca por privacidade e anonimato é vista pela comunidade como passo fundamental para a criação de moedas que possam ser resistentes a regimes ditatoriais e à censura. Não à toa o uso de Dash cresce vertiginosamente na Venezuela. Justamente por isso e pela possibilidade de uso para atividades ilegais, alguns países veem as privacycoins como ameaça. O Japão, por exemplo, proibiu negociações em privacycoins em maio do ano passado. Essa não é a única sanção imposta a players que tentam ampliar o anonimato na blockchain: a wallet Samourai, focada em privacidade, teve de remover algumas funcionalidades para atender às políticas da Google Play Store.

Os governos, é claro, podem proibir corretoras em seu território de listarem privacycoins e realizarem transações fiat-cripto, mas pouco podem fazer para impedir transações diretamente em cripto. Além disso, devido às tecnologias de anonimização, rastrear a origem e uso de privacycoins pode ser extremamente custoso e até mesmo impossível.

Para garantir anonimato e obfuscar transações, cada criptomoeda utiliza uma tecnologia diferente. A Dash, por exemplo utiliza um método já antigo e conhecido por muitos usuários do Silk Road, que realizavam o mesmo procedimento com o Bitcoin: o CoinJoin.

Muita gente não sabe, mas há uma grande similaridade entre o Bitcoin e as moedas físicas: a forma como o saldo é somado. O saldo de uma carteira Bitcoin é a soma das UTXOs (unspent transaction outputs), ou seja, a soma de transações não gastas. Isso é, soma-se todas as moedas que foram enviadas para uma carteira e que não foram utilizadas, da mesma forma como se faria com uma carteira física.

O CoinJoin junta então as UTXOs de diferentes usuários e os mistura, devolvendo os valores respectivos para cada usuário no final do processo. O processo pode ser explicado da seguinte maneira: imaginemos que duas pessoas tenham cinco reais cada, dispostos em dez moedas de cinquenta centavos. Misturam-se as moedas das duas pessoas e, após isso, cada um pega dez moedas. Ambos terão novamente cinco reais cada um, mas não se saberá a origem das moedas que cada um agora carrega.

A intenção do processo é sobrecarregar a rede com informações, dificultando o rastreamento de cada moeda, já que o procedimento é realizado repetidas vezes. No Bitcoin o CoinJoin precisa ser realizado manualmente. O diferencial da Dash é que já realizar o procedimento por default.

Já a Zcash utiliza um sistema de criptografia chamado de zk-snarks, baseado em provas zero knowledge, em que é possível provar a autenticidade de uma transação sem revelar seu valor ou recipiente. Zk-snarks são funções criptográficas complexas, mas podemos explicá-los através de uma simples analogia.

Imaginemos que você está fazendo um jantar para um convidado e, então, pede que ele lhe pegue dois pimentões na geladeira, um verde e um vermelho. O convidado pega os dois pimentões, mas, por ser daltônico, afirma que só há pimentões de uma cor. Você consegue ver a diferença entre os dois pimentões, mas o convidado insiste: só há pimentões de uma cor.

Você então propõe uma solução para o imbróglio: você fechará os olhos, o convidado misturará os pimentões e então você dirá qual é qual. O procedimento é realizado uma vez, você acerta. Duas vezes, acerta de novo, e assim sucessivamente. Lá pela quinta vez, o convidado está convencido de que você sabe identificar diferenças entre os pimentões, ainda que não compreenda exatamente como você faz isso.

Assim operam os zk-snarks: há alguém que prova a validade de uma transação e alguém que verifica a prova. Você prova que a distinção é verdadeira e o convidado valida ou não a prova. Assim ocorre com as transações: através de um algoritmo criptográfico, prova-se que são verdadeiras sem necessariamente mostrar o porquê, nem quanto foi transferido, nem pra quem, com sua validade sendo verificada criptograficamente.

O ponto alto dos zk-snarks é que suas provas podem ser geradas off-chain, sendo necessário somente que sejam validadas na blockchain. Dessa forma, zk-snarks reduzem o tempo de processamento de transações e aumentam a escalabilidade das criptomoedas. Além da Zcash, sua implementação está sendo estudada para o (ETH) e já há desenvolvimentos para possibilitar o envio da stablecoin DAI através de zk-snarks, tornando possível o envio de dólares para qualquer local do mundo de maneira rápida e anônima, o que pode ser um dos projetos mais promissores para todo o ecossistema de criptomoedas.

Já o Monero (XMR) utiliza ring signatures, em que as transações são assinadas por múltiplos usuários da rede. Como há múltiplas assinaturas na transação, pode-se apontar quem participou de uma ring signature, mas não é possível afirmar quem é o autor da transação. No final do ano passado, o Monero também passou a utilizar a tecnologia bulletproof, que também opera com algoritmos zero-knowledge, ganhando velocidade, diminuindo custos de transação e aumentando a privacidade. Não à toa ela é a moeda padrão de grande parte dos dark markets mundo afora.

Não podemos deixar de falar também do projeto que é o queridinho de onze em cada dez criptomaníacos nos últimos tempos, a Grin. Particularmente sempre detestei Harry Potter, mas finalmente fui obrigado a reconhecer que, ainda que incidentalmente, J.K Rowling nos deu algo de bom: o Mimblewimble.

Nos livros e filmes, mimblewimble é o nome de um encanto que impede que seus inimigos lancem feitiços contra você. O protocolo mimblewimble utiliza criptografia de curva elíptica, uma função logarítmica extremamente segura. Além disso, o CoinJoin é aplicado diretamente no protocolo, não sendo realizada a mixagem de outputs depois do final de cada transação. A Grin nasce como uma testnet do Bitcoin: caso suas implementações sejam bem-sucedidas, no futuro elas podem ser implementadas à rede Bitcoin.

Por falar em Bitcoin, os números de nós da Lightning Network, vêm aumentando constantemente. A Lightning é uma solução de segunda camada que promete trazer mais escalabilidade e maior privacidade ao Bitcoin, processando e validando transações off-chain. Caso a Lightning decole, muitas privacycoins podem perder sua razão de existir.

Além disso, há um problema inerente às privacycoins como investimento: Monero e Grin são inflacionárias e os fundadores da Zcash e Dash controlam cerca de 20% das moedas em circulação, podendo assim manipular o mercado ao seu bel prazer. Por isso, nós do Atlas Quantum optamos por operar somente com Bitcoin, que é deflacionária, efetivamente descentralizada e deve ganhar mais privacidade em 2019, além de nos permitir ter mais de 60% de rendimento ao ano.

Se tratando de investimento de players do mercado, podemos sem dúvidas já ver certa ambivalência entre apostas na regulamentação e no aumento de privacidade para a blockchain. Se de um lado a Binance pretende abrir novas corretoras pelo mundo, operando de acordo com a regulamentação local, ela também pretende lançar uma corretora descentralizada e anunciou uma parceria com Amir Taaki, um dos maiores criptoanarquistas do mundo e desenvolvedor do Bitcoin Core, para desenvolver novas soluções de anonimato.

Ainda não sabemos como o embate entre regulamentação e privacidade irá se desenrolar para o mercado de criptomoedas: tese e antítese já se encontram postuladas, resta-nos aguardar para observar sua síntese. Espero que, assim como na dialética de Hegel, ao atingirmos a síntese, possamos vivenciar algum progresso na História.

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